Debate na FLIP reúne expoentes do horror moderno que recusam o escapismo comercial. O foco das obras apresentadas é a desigualdade histórica do Brasil. A obra Necrológio, de Pedro Sasse, exemplifica essa tendência ao explorar traumas e a memória nacional. Concorra a exemplares
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Debate na FLIP reúne expoentes do horror moderno que recusam o escapismo comercial. O foco das obras apresentadas é a desigualdade histórica do Brasil. A obra Necrológio, de Pedro Sasse, exemplifica essa tendência ao explorar traumas e a memória nacional. Concorra a exemplares
Publicado 03/07/2026 às 17:15
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A literatura de horror vive, no Brasil, um momento de inflexão. Distante tanto da tradição gótica europeia quanto do consumo acelerado do terror como mero entretenimento, parte significativa da produção contemporânea passou a compreender o medo como um fenômeno histórico. O monstro já não é apenas uma criatura extraordinária; é também uma forma de revelar aquilo que a sociedade insiste em normalizar: o racismo, a violência de Estado, o patriarcado, a desigualdade e os traumas que estruturam a experiência brasileira.
Essa perspectiva atravessa a mesa “Corpos, crimes e fantasmas: narrativas do medo no Brasil“, que reúne Verena Cavalcante, Bruno Ribeiro, Iza Artagão e Pedro Sasse, no dia 24 de julho, às 20h, na Casa Pagã, durante a FLIP. Embora escrevam a partir de registros bastante distintos — do thriller policial ao horror sobrenatural, da fantasia sombria ao gótico tropical —, os quatro autores compartilham uma mesma recusa: a de compreender o horror como simples exercício de escapismo.
Em Verena Cavalcante, o medo nasce do espaço doméstico e da infância. Seus livros desmontam a ideia da infância como território de inocência, mostrando-a atravessada por silêncios familiares, violência e heranças históricas que continuam produzindo fantasmas. O sobrenatural aparece menos como ruptura da realidade do que como linguagem capaz de tornar visíveis traumas que insistem em permanecer subterrâneos.
Bruno Ribeiro desloca essa investigação para o campo das relações sociais. Em sua ficção, marcada por distopias, violência e imaginação especulativa, o horror surge como consequência das estruturas que organizam a vida brasileira. Racismo, desigualdade e exclusão deixam de ser pano de fundo para se tornarem a própria matéria do terror. Em vez de imaginar mundos distantes, sua literatura radicaliza o presente, tornando explícito aquilo que a realidade frequentemente naturaliza.
A produção de Iza Artagão aproxima esse horizonte crítico do romance policial. Seus thrillers trabalham a investigação criminal não apenas como mecanismo narrativo, mas como reflexão sobre instituições, justiça e violência. Ao incorporar elementos sobrenaturais e psicológicos ao suspense investigativo, sua escrita dissolve fronteiras entre crime e horror, sugerindo que ambos compartilham um mesmo objeto: a
experiência social do medo.
Já Pedro Sasse desenvolve uma ficção em que o fantástico opera como arqueologia da memória brasileira. Em Necrológio, lançado pelos nossos parceiros da Acaso Cultural, o pós-vida torna-se um território onde diferentes violências históricas permanecem coexistindo: vítimas da escravidão, da ditadura militar, do fanatismo religioso e do genocídio da população negra dividem um mesmo espaço narrativo. O horror deixa de estar associado apenas ao encontro com o sobrenatural e passa a emergir da persistência histórica de experiências que o país nunca conseguiu elaborar plenamente.
Outras Palavras e Acaso Cultural sortearão dois exemplares de Necrológio, de Pedro Sasse, entre quem apoia nosso jornalismo de profundidade e de perspectiva pós-capitalista. O sorteio estará aberto para inscrições até a segunda-feira do dia 8/6, às 14h. Os membros da rede Outros Quinhentos receberão o formulário de participação via e-mail no boletim enviado para quem contribui. Cadastre-se em nosso Apoia.se para ter acesso!
A reunião desses escritores evidencia um deslocamento importante na literatura brasileira contemporânea. Em vez de reproduzir convenções importadas, essa produção investe na construção de um imaginário profundamente situado, onde assombrações dialogam com a história nacional e o fantástico se torna uma forma de conhecimento crítico. O medo deixa de funcionar apenas como emoção estética para assumir dimensão ética e política.
Não é casual que crime e horror apareçam lado a lado no título da mesa. Ambos investigam formas de violência, ambos interrogam os limites da justiça e ambos procuram compreender aquilo que retorna quando uma sociedade fracassa em enfrentar seus próprios fantasmas. Se o romance policial tradicional buscava restaurar uma ordem rompida pelo crime, boa parte do horror brasileiro contemporâneo parece
partir da hipótese inversa: a de que a própria ordem social já nasce fundada sobre diferentes formas de violência.
Nesse sentido, a presença dessa discussão na programação paralela da FLIP não representa apenas o fortalecimento da literatura de gênero, mas também o reconhecimento de que o horror se consolidou como um dos espaços mais férteis da ficção brasileira para pensar memória, poder e conflito social. Mais do que assustar, esses autores interrogam as formas pelas quais uma sociedade produz seus mortos,
administra seus desaparecidos e convive com aquilo que insiste em não desaparecer.
Em parceria com a Acaso Cultural, o Outras Palavras irá sortear dois exemplares de Necrológio, de Pedro Sasse, entre quem apoia nosso jornalismo de profundidade e de perspectiva pós-capitalista. O sorteio estará aberto para inscrições até a segunda-feira do dia 8/6, às 14h. Os membros da rede Outros Quinhentos receberão o formulário de participação via e-mail no boletim enviado para quem contribui. Cadastre-se em nosso Apoia.se para ter acesso!
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