Panfleto do autor de Os Miseráveis já alertava, no século XIX, para os perigos da especulação imobiliária e homogenização urbana. Tradução completa é publicada pela primeira vez em português, pela Acaso Cultural. Quem nos apoia concorre a exemplares
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Panfleto do autor de Os Miseráveis já alertava, no século XIX, para os perigos da especulação imobiliária e homogenização urbana. Tradução completa é publicada pela primeira vez em português, pela Acaso Cultural. Quem nos apoia concorre a exemplares
London Stereoscopic Company / Hulton Archive / Getty Images | Imagem reproduzida no site ThoughtCo
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Em um momento onde presenciamos o descaso com a memória, visto na degradação de bairros e monumentos históricos, na gentrificação e na estética padronizada, vendida com uma fachada de “modernização” – mas que serve apenas à especulação imobiliária –, devemos reverberar o debate acerca da preservação do patrimônio histórico de maneira insistente.
A discussão sobre a importância do direito à memória, sustentabilidade urbana e identidade coletiva obviamente não começou agora. Há quase dois séculos, um ilustre autor já se preocupava com a questão: Victor Hugo. No escrito Guerra aos Demolidores (Guerre aux démolisseurs!), publicado originalmente em 1832, o poeta apresenta uma defesa veemente do patrimônio histórico e da memória cultural frente à urbanização negligente que se instaurava à sua época.
É justamente por sua força atemporal que, recentemente, nossos parceiros da Acaso Cultural publicaram o texto pela primeira vez em uma tradução completa para o português, graças aos esforços do escritor recifense Diogo Santiago.
Outras Palavras e Acaso Cultural sortearão dois exemplares de Guerra aos Demolidores, de Victor Hugo, entre quem apoia nosso jornalismo de profundidade e de perspectiva pós-capitalista. O sorteio estará aberto para inscrições até a segunda-feira do dia 1/6, às 14h. Os membros da rede Outros Quinhentos receberão o formulário de participação via e-mail no boletim enviado para quem contribui. Cadastre-se em nosso Apoia.se para ter acesso!
Publicado a princípio como um panfleto manifesto na tradicional revista francesa Revue des deux Mondes – uma das mais antigas em circulação na Europa (desde 1829), o texto advoca contra a “barbárie” – nas palavras do autor – que vandalizava a arquitetura antiga, como a arquitetura gótica, e, por conseguinte, a identidade cultural do país.
Seu argumento é o de que monumentos e bairros históricos pertencem à memória e identidade de um povo e transcendem a propriedade privada ou às decisões burocráticas de um governo.
Demonstrando-se um escritor engajado com os problemas sociais de seu tempo, o francês escreveu O corcunda de Notre-Dame (1831). Muito além de uma obra de ficção, o romance buscava salvar a catedral de uma demolição iminente. O feito conseguiu amplo espaço na opinião pública e forçou o governo a financiar a grande restauração da catedral – monumento que, para o olhar de hoje, é um símbolo mundial das possibilidades humanas de criação.
Da mesma forma que a publicação do romance surtiu efeito em causas reais, Guerre aux démolisseurs! interferiu no debate público e atravessou o tempo ao lançar as bases do que entendemos hoje como o campo de pesquisa e aplicação da preservação do patrimônio histórico.
Já naquele período, Victor Hugo criticava a obsessão pela criação de longas e perfeitas ruas que substituam templos antigos. É um debate muito próximo ao que temos nos dias de hoje, quando toda a arquitetura vernacular de um lugar sofre o perigo de ser apagada para dar lugar à homogeneização visual de estruturas que privilegiam carros e aberrantes edifícios.
A atual destruição deliberada de sítios arqueológicos, monumentos históricos e cidades inteiras em contextos de guerra, como as perdas materiais que hoje ocorrem no Oriente Médio, é outro exemplo da atualidade do panfleto.
As novas gerações, nascidas em cidades devastadas e sem os marcos físicos da memória de sua cultura, correm o risco de sofrer uma desconexão histórica com seu passado. É assim que ocorre o apagamento histórico, outro tipo de crime perpetrado em guerras, mas não só, pois o desastre de Mariana, o desmatamento que expulsa povos originários de suas casas também são reflexos disso.
A preservação dessas edificações, seja de qual tipo, garante a ancoragem social e o senso de pertencimento a uma comunidade, a um passado, a uma história comum.
Há muito mais nuances no contexto que ronda tal panfleto, mas o fato é que, no século XIX, o poeta ergueu as primeiras colunas do que hoje entendemos como um direito humano inalienável.
Em parceria com a Acaso Cultural, o Outras Palavras irá sortear dois exemplares de Guerra aos Demolidores, de Victor Hugo, entre quem apoia nosso jornalismo de profundidade e de perspectiva pós-capitalista. O sorteio estará aberto para inscrições até a segunda-feira do dia 1/6, às 14h. Os membros da rede Outros Quinhentos receberão o formulário de participação via e-mail no boletim enviado para quem contribui. Cadastre-se em nosso Apoia.se para ter acesso!
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